Adolescente, família e sexualidade

Sylvia Maria Oliveira da Cunha Cavalcanti*

A adolescência é uma fase mágica, heroica e sonhadora, na qual o despertar sexual ocorre de modo brusco e intenso, sempre com a crença da eternidade. O amor na adolescência é povoado de certezas pueris e fantasiosas, muitas vezes acompanhado do sentimento de que a relação vai durar para sempre, de que nada de mal vai acontecer.

Para que se entenda o comportamento do adolescente, vou apresentar para você alguns conceitos sobre o desenvolvimento mental humano. De acordo com a teoria de Piaget (2009), o desenvolvimento mental ocorre em quatro estágios: sensório motor (0-24 meses); pré-operatório (2-7 anos); concreto (7-12 anos); e abstrato (dos 12 aos 16 anos), ou seja, só a partir de em torno dos 16 anos o ser humano torna-se capaz de construir seus pensamentos e comportamentos, isto ainda pautado na dependência de suas vivências e experiências prévias.

É na adolescência que o ser humano vai adquirindo progressivamente a capacidade de pensar em hipóteses, porém ainda oscilando entre o pensamento mágico, ainda um comportamento dos tempos de criança, e o pensamento abstrato, característico do adulto. Essa fase de transição faz da adolescência um período de muitos riscos potenciais. Dentre os riscos potencialmente mais frequentes estão aqueles relacionados à atividade sexual precoce e desprotegida (DSTs e gravidez não-planejada), a violência e uso de drogas lícitas e ilícitas.

Estudos apontam que o contexto familiar tem uma relação direta com a época do início da vida sexual, que de acordo com as pesquisas do Ministério da Saúde, ocorre por volta dos 16 anos, em média, no Brasil. Sabe-se ainda que o afastamento dos membros da família e a desestruturação familiar, muito comum nos dias de hoje, trazem mais insegurança ao adolescente que, totalmente despreparado e sem a ajuda necessária dos pais, dá vazão aos anseios sexuais em função dos estímulos característicos da puberdade.

A falha de comunicação entre pais e filhos proporciona ao adolescente, muitas vezes, uma falsa sensação de liberdade e um desejo de rebeldia. Em minha opinião e experiência, considero que este é um dos fatores que levam muitos jovens a iniciarem sua vida sexual sem o cuidado necessário. É importante neste contexto conhecer e refletir sobre os processos de escolha na adolescência. Tem que parar, pensar e encontrar alternativas para mais diálogo.

Estudos indicam que adolescentes, cujas mães iniciaram a vida sexual precocemente ou engravidaram durante a adolescência, tendem a repetir a história. Experiências sexuais mais precoces são observadas ainda em adolescentes em cujas famílias os irmãos mais velhos têm vida sexual ativa, apontam outras pesquisas.

O sexo quando ocorrer tem que ser uma escolha consciente e protegida, pois desta forma se evitará as DSTs ou a gravidez não-planejada e inesperada. As decisões dos adolescentes têm que ser por escolhas conscientes e não por falta de opção. O momento da escolha é o presente e é neste presente que o adolescente definirá um futuro, por sua vez baseado, em suas referências passadas, que não são muito numerosas. Sabemos que são vários os fatores que influenciam nas escolhas, desde características pessoais a convicções políticas e religiosas, valores, crenças, contexto socioeconômico, família e amigos. A família é apontada como um dos principais fatores, que pode tanto ajudar quanto dificultar o jovem no momento da decisão. A escolha acompanha o homem e a mulher em toda sua vivência emocional e cada escolha traz consigo uma consequência, temos que nos lembrar disso.

O ser humano é um ser social e, particularmente na adolescência, o pertencimento a um grupo social traz segurança e confiança. O grupo e os adultos significativos são determinantes nas escolhas, cabendo então aos pais, mestres, médicos e orientadores ficarem atentos aos grupos sociais dos quais seus filhos e filhas participam. Manter um diálogo aberto, franco e não preconceituoso, oferecendo informações corretas elucidativas às possíveis questões apresentadas, também é essencial. Por mais que ocorram choques, é importante que todos busquem mais entendimento e compreensão.

É possível que os adolescentes e suas famílias passem por este momento de forma mais tranquila e saudável. Mas, para que isso ocorra, o adolescente tem que encontrar um espaço afetivo e social que lhe dê amparo e limite. Quanto maior for o sentimento de segurança nos adultos significativos, menores serão os conflitos, pois a segurança gera confiança; sentindo-se seguro, o adolescente poderá realizar suas escolhas e a construção da sua identidade. É necessário um espelho confiável e o reconhecimento fortalecedor, tanto por parte dos adultos como do grupo social.

Como membros da sociedade, cada um precisa ter o compromisso de fornecer informações corretas e que estimulem aos jovens um projeto de vida. A falta de um plano para um futuro aumenta os riscos de uma gravidez precoce, do envolvimento com violência e drogas, situações críticas quando associadas à baixa autoestima e à menor qualidade das atividades que o adolescente realiza no seu tempo livre. Os pais e responsáveis, sem dúvida, podem ajudar dando afeto, mantendo a filha ou filho acolhido, demonstrando que se orgulham deles, possibilitando, então, escolhas adequadas, mais seguras e conscientes.

* Médica especialista Ginecologista obstetra com área de atuação em sexologia pela FEBRASGO; Mestre em saúde Materno Infantil, Professora da Faculdade de Medicina do Centro de Ensino Unificado de Brasília, Membro do Comissão Nacional de Sexologia da FEBRASGO, Membro da Sociedade de Ginecologia Infanto Puberal (SOGIA), Especialista em Ginecologia da criança e da adolescente pela UFPE, Especialista em sexologia e Educação sexual pela FLASSES (Federação Latino Americana de Sexologia e Educação Sexual)

Referências bibliográficas

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