O movimento A Vida é Feita de Escolhas

Contracepção na adolescência

 

O planejamento familiar na adolescência é um tema muito complexo e desafiador. Muitas vezes, o adolescente crê na improbabilidade das consequências do sexo sem a proteção da camisinha e do contraceptivo. Ainda hoje, o método de escolha do adolescente tem sido o método “absolutamente nada”, conforme apontam as pesquisas, o que pode acarretar em resultados que afetam a vida dos envolvidos e de suas famílias. Contudo, sabemos que contracepção é um tema extremamente importante, tendo em vista a relevância social da gravidez nessa faixa etária e a possibilidade de exposição às doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e AIDS.

Além do início da atividade sexual cada vez mais precoce, os jovens, na maioria das vezes, iniciam a vida sexual sem proteção. Estudos realizados na América Latina têm mostrado que menos de 20% dos homens e de 15% das mulheres usam algum método anticoncepcional na primeira relação sexual.

Raramente, na prática clínica ou no contato com jovens no ambiente escolar, encontramos um adolescente que diz não ter recebido informações sobre opções contraceptivas. Em estudo realizado usando o banco de dados do PNDS (Programa Nacional de Demografia e Saúde), com representatividade de mais de 90% da população adolescente brasileira, constatou-se que 97% dos adolescentes conheciam, pelo menos, um tipo de método anticoncepcional. Entretanto, nesse mesmo grupo apenas 27,3% admitiram ter usado algum tipo de método contraceptivo em seus últimos relacionamentos sexuais. Outros estudos revelam que o uso quando ocorre costuma ser de forma inadequada. Assim, é preciso reforçar sempre a orientação sobre a necessidade do uso da camisinha e de um método contraceptivo para prevenir uma gravidez não-planejada.

Segundo o Ministério da Saúde, a assistência em anticoncepção pressupõe oferta de todas as alternativas de métodos contraceptivos, assim como o acompanhamento clínico-ginecológico referente ao método escolhido. Os métodos se dividem de acordo com o mecanismo de ação e são eles: a) métodos comportamentais ou métodos anticoncepcionais naturais que estão embasados na auto-observação do que ocorre no organismo ao longo do ciclo menstrual, sendo necessário que as adolescentes tenham ciclos menstruais regulares e que exista cumplicidade entre o casal (Ogino-Knaus, temperatura basal corporal, mucocervical ou Billings). Esses métodos, entretanto, costumam ser inadequados para as adolescentes, que geralmente têm ciclos irregulares, ausência de parceiros fixos e o sexo ocorre de forma imprevisível, em consequência de uma oportunidade momentânea; b) os métodos de barreira, que consistem em obstáculos mecânicos ou químicos à penetração dos espermatozóides no canal cervical, como o diafragma e os preservativos masculino e feminino.  Esses são métodos que devem ser estimulados e disponibilizados aos adolescentes, pois além da prevenção da gravidez, eles contribuem com a prevenção das doenças sexualmente transmissíveis, devendo inclusive ser usados de forma isolada ou conjunta a outro método para uma dupla proteção; c) método hormonal, por meio de medicamentos oral, injetáveis, adesivos ou o implante, cuja finalidade básica é impedir a concepção. São excelentes métodos, que devem ter o uso estimulado na adolescência pois, além de uma boa proteção contraceptiva, eles contribuem para regular os ciclos, diminuem o fluxo menstrual, as cólicas e a TPM; d) dispositivo intra-uterino (DIU), que atua impedindo a fecundação. Não é o método mais indicado na adolescência, pois em garotas que nunca engravidaram, existe um risco maior de expulsão do dispositivo, além de aumentar as cólicas e o fluxo menstrual; e) métodos cirúrgicos ou esterilização, incluem a ligadura das trompas e a vasectomia. Esses são totalmente desaconselháveis aos adolescentes, salvo em casos muito especiais; f) contracepção de emergência, método alternativo hormonal oral que evita a gravidez quando o medicamento é ingerido até 72 horas após a relação sexual desprotegida. Só deve ser usado em situações especiais e não como método de escolha.

Diversos estudos buscam verificar o conhecimento e o comportamento contraceptivo em adolescentes com objetivo de analisar essa realidade e propor estratégias que promovam melhores iniciativas voltadas à saúde sexual e reprodutiva para esse grupo etário especificamente. Os profissionais da saúde que lidam com jovens devem estar preparados para respeitar a autonomia de livre escolha e oferecer sempre informações e acompanhamento adequado, garantido assistência de qualidade aos adolescentes e jovens. Vale destacar que a idade não representa restrição ao uso de qualquer método anticoncepcional na adolescência depois da menarca.

Ressaltamos a importância de o médico analisar cada adolescente individualmente, evitando generalizações, com paciência e atenção. Anamnese detalhada (levantamento do histórico de saúde do adolescente e de sua família) e exame físico minucioso, na maioria das vezes, são suficientes para a prescrição de algum método contraceptivo. O profissional deve informar sobre vantagens, desvantagens, efeitos colaterais, eficácia e benefícios de cada opção, respondendo com especial atenção as duvidas, anseios e temores.

O panorama da contracepção na adolescência deixa clara a necessidade não só de ampliar o acesso a serviços especializados, como também a importância de contextualizar no processo educativo, o conhecimento referente à sexualidade, destacando-se a promoção da saúde e a inclusão da família e da comunidade. O conhecimento sobre os métodos contraceptivos e os riscos advindos de relações sexuais desprotegidas é fundamental para que os adolescentes possam vivenciar o sexo de maneira adequada e saudável, além de ser um direito que possibilita cada vez mais, ao ser humano, o exercício da sexualidade desvinculado da procriação.

Lembramos ainda que a confidencialidade é direito do adolescente, reconhecido no artigo 103 do Código de Ética Médica. A quebra do sigilo por parte do ginecologista ou médico, também prevista no mesmo artigo, deverá ser realizada com o conhecimento do adolescente, mesmo que sem a sua anuência.

O adolescente tem direito à educação sexual, ao acesso à informação sobre contracepção, à confidencialidade e ao sigilo sobre sua atividade sexual e sobre a prescrição de métodos anticoncepcionais, respeitadas as ressalvas do Art. 103, Código de Ética Médica. O profissional que assim se conduz não fere nenhum preceito ético, não devendo temer nenhuma penalidade legal. O avanço em relação ao suporte legal para a proposta ética é dado pela Lei nº 8069-90- Estatuto da Criança e do Adolescente e pela revisão pela ONU da Conferência Mundial de População e Desenvolvimento (Cairo, 1995).

 

Referências Bibliográficas

  1. Cavalcanti, S. Os fatores associados ao uso e não uso de anticoncepcionais na adolescência. Estudo epidemiológico de corte Transversal de representatividade nacional (PNDS), 2000 [dissertação mestrado]. Recife: Faculdade de Medicina do instituto Materno Infantil de Pernambuco, IMIP.
  2. Departamentos de Bioética e Adolescência da Sociedade de Pediatria de São Paulo. Aspectos éticos do atendimento médico do adolescente. Rev Paul Pediatria 1999; 17(2):95-7
  3. Diaz J, Diaz M. Contracepção na adolescência. Cad Juv Saúde Desenvol 1999; 1 : 249-57
  4. Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Saúde da adolescente. Manual de orientação. São Paulo; 2001.
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  7. Saito MI, Leal MM, Silva LEV. A confidencialidade no atendimento à saúde de adolescentes: princípios éticos. Pediatria (São Paulo) 1999; 21(2):112-6.