O movimento A Vida é Feita de Escolhas

Ciclo menstrual e ovulação

Sylvia Maria Oliveira da Cunha Cavalcanti*

O ciclo menstrual é um processo fisiológico que ocorre de modo cíclico em todas as mulheres durante a fase da vida chamada de período reprodutivo. Este período se estende desde a primeira menstruação que tem o nome de menarca, e ocorre em média nas mulheres brasileiras aos 12 anos, variando de pessoa para pessoa. A menstruação continua até a menopausa, que é o nome dado à última menstruação que ocorre, em média, aos 50 anos. A menstruação é considerada um evento marcante na vida das mulheres e assume importância vital na adolescência.

O ciclo menstrual normal tem em média 28 dias, com uma variação de mais ou menos 5 dias, ou seja, o ciclo pode variar entre 23 a 35 dias. É considerado como o primeiro dia do ciclo, o primeiro dia que desce a menstruação e o último dia do ciclo é o dia que antecede o primeiro dia da próxima menstruação. Com relação à duração do fluxo menstrual, ele tem, em média, cinco dias de duração. Entretanto, pode ser considerada normal uma menstruação com duração de fluxo entre 2 a 8 dias. Outro dado importante é a quantidade do fluxo menstrual, sendo considerada normal uma perda sanguínea média de 80 ml de sangue por ciclo, com variação entre 30 a 100ml. E como saber quantos ml de sangue a pessoa perde em um ciclo? Realmente, é uma dedução difícil. Alguns consideram como parâmetro de normalidade o uso de até cinco absorventes cheios por dia. A presença de coágulos também é um aspecto relevante, que indica um sangramento aumentado.

É importante avaliar tanto a quantidade de dias da menstruação, como também avaliar o intervalo entre um ciclo e outro, quantos dias demora os fluxos, e efetuar a comparação entre os ciclos menstruais de uma mesma mulher. Este acompanhamento permite saber se ocorreu alguma alteração no ciclo menstrual: se a mulher que sempre teve ciclos mais longos ou com mais dias de fluxos passou a ter ciclos curtos ou com pouco fluxo. Em casos de mudanças, indica-se uma avaliação ginecológica.

Para que possamos compreender como acontecem os ciclos menstruais, temos que entender que estes ciclos são resultantes das produções hormonais. A produção dos hormônios começa em uma glândula que fica localizada dentro da cabeça e chama-se hipófise. Os hormônios que a hipófise produz são dois: o FSH (Hormônio Folículo Estimulante) e o LH (Hormônio Luteinizante). Estes dois hormônios ativam o amadurecimento dos folículos dentro dos ovários. Os ovários são como se fossem dois saquinhos de óvulos e neles, desde que nascemos, trazemos todos os potenciais óvulos, que no momento do nascimento são chamados de oócitos primários. Estes oócitos vão sofrer um processo de amadurecimento dentro dos ovários a partir da ação daqueles dois hormônios da hipófise, que já falamos acima, o FSH e o LH.

Os oócitos primários ficam dentro de uma estrutura chamada de folículos. Lá eles se desenvolvem gradativamente, sob a ação do hormônio folículo estimulante (FSH), que começa a ser produzido por volta do terceiro dia do ciclo. Em torno do 14-15º dia do ciclo menstrual, o hormônio luteinizante (LH) tem um pico e provoca a liberação do óvulo, ou seja, a ovulação. Quando o óvulo é liberado, ele é captado pela trompa, onde inicia sua trajetória até o útero. É durante o tempo que ele está passando pela trompa que, se ocorrer um encontro com um espermatozóide, ocorrerá à fertilização com a formação do ovo, formando o futuro embrião.

No ovário, durante o amadurecimento do óvulo ocorre à produção de um hormônio chamado Estrogênio, predominantemente nos primeiros 15 dias e, depois da ovulação, acontece a produção de outro hormônio, a Progesterona. Estes dois hormônios, por sua vez, agem em vários tecidos do corpo feminino, provocando as características femininas, como mamas, tipo de depósito de gorduras, tom da voz etc.

Particularmente em relação ao útero, ocorrem várias modificações, principalmente, na camada interna do útero que tem o nome de endométrio. Esta camada cresce gradativamente e no final do ciclo menstrual, o endométrio com a queda da produção destes dois hormônios (estrogênio e progesterona), se desfaz e é expelida do corpo por meio da vagina, sobre a forma de sangue menstrual e tem o nome de menstruação.

É muito importante que se saiba que nem todos os ciclos menstruais são iguais. Nos dois ou três primeiros anos após a primeira menstruação, os ciclos costumam ser irregulares, devido à imaturidade do eixo hormonal hipotálamo-hipófise ovariano, ou seja, o organismo da mulher ainda está em processo de amadurecimento. Em alguns casos, podem ser  indicadas medicações que controlem os ciclos, que devem ser prescritas pelo médico ginecologista. Passado este tempo, os ciclos costumam tornar-se mais regulares e, de um modo geral, os ciclos tendem a estabilizar até a mulher chegar aos 40-45 anos. A partir desta idade, os ciclos poderão passar novamente a ser irregulares, até a menopausa.

Algumas mulheres apresentam alterações menstruais durante toda sua vida reprodutiva que precisam ser avaliadas por um médico e tratadas. É importante que a adolescente visite regularmente um ginecologista desde o início do ciclo menstrual. A avaliação clínica das adolescentes deve incluir uma análise do ciclo menstrual, com ênfase na importância de alterações no padrão do ciclo, que possam representar o primeiro sinal de uma doença sistêmica e evolutiva, cuja manifestação clínica pode ocorrer apenas na idade adulta. A valorização das alterações no padrão do ciclo menstrual é uma oportunidade para um diagnóstico precoce de qualquer enfermidade e o início de ações preventivas.

 

Referências bibliográficas

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* Médica especialista Ginecologista obstetra com área de atuação em sexologia pela FEBRASGO; Mestre em saúde Materno Infantil, Professora da Faculdade de Medicina do Centro de Ensino Unificado de Brasília, Membro do Comissão Nacional de Sexologia da FEBRASGO, Membro da Sociedade de Ginecologia Infanto Puberal (SOGIA), Especialista em Ginecologia da criança e da adolescente pela UFPE, Especialista em sexologia e Educação sexual pela FLASSES (Federação Latino Americana de Sexologia e Educação Sexual).